Há
uma árvore no caminho, uma árvore antiga e sem flores nem frutos. É uma árvore
alta e com ramos longos, despidos de folhas. Não paro, olho apenas com um
sorriso invernal a coragem de um pássaro a cortar o vento gelado e sigo o caminho
onde há uma árvore alta. O horizonte é desanimador, o frio do Sol torna as
montanhas longínquas mais inalcançáveis, mais montanhosas. Parei, cansado, com
lágrimas nos olhos e com uma brisa de saudade nos lábios, parei sem olhar o
mundo que me cerca sem medo do vento e do frio. Não, não posso ficar parado
nesta rocha deste caminho infinito neste horizonte só meu, só triste, só
cansado. Agora não há árvores, a neve que cai assenta com subtileza na relva
que cansa os meus pés e bloqueia a minha vontade de vencer aquelas montanhas do
horizonte. Não consigo, hoje o choro dos meus olhos não me deixa correr,
não me deixa batalhar contra este caminho, hoje não dá e amanhã é tarde de mais
para conseguir vencer, é demasiado tarde para chegar ao fim, amanhã é demasiado
tarde para chegar ao cume e voltar a respirar aquele ar alegre de ser feliz.
Ajuda-me, dá-me o teu espírito, a tua alma. Sim, tu! Mostra-me aquele sorriso
de força e coragem para calcar esta relva e chegar ao outro lado deste mundo
triste e desgastante. Abraça-me com toda a tua força para não cair nas
esporádicas rochas carregadas com um cinzento demolidor e, ao mesmo tempo,
débil, chora comigo enquanto deixamos para trás aquela árvore ali à frente,
caminha comigo, ao meu lado, como se passeássemos pelo parque numa tarde de
domingo. Sê, nesta viagem interminável, o outro lado da montanha que preciso de
ultrapassar, sê a minha glória, a minha fé, a minha vontade, sê a parte do meu
sorriso perdido naquela cordilheira, sê a metade de mim que procuro para limpar
as minhas lágrimas, sê eu sendo tu. Ajuda-me. Abraça-me. Protege-me ao longo
deste caminho só meu e, por isso, só nosso. Sim, tu! Ama-me... Sê o brilho dos meus olhos e a beleza do meu sorriso porque, contigo, o fim deste caminho triste é já ali...
sexta-feira, 8 de março de 2013
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013
Perder-te...
Perder
é a coisa mais dolorosa que o Homem tem. Sabes, mãe? Perder é o verbo mais
violento de todas as línguas. Perder é como levar um eterno murro no estômago
sem medicamentos para as dores…
Ah,
quase que me esquecia, mãe, tirei 18,9 no teste Português.
Perder-te,
mãe, a ti, foi ter um comboio de alta velocidade dentro da minha cabeça, foi
pensar em tudo o que foi nosso, tudo o que fizemos, tudo o que, um dia, nos fez
mãe e filho.
Sim,
mãe, já arrumei a mochila e as minhas sapatilhas…
Perder
os conselhos que me davas, as cócegas que animavam as nossas noites de
fim-de-semana, perder a tua voz sincera e cordial, a tua atitude decidida e
empenhada, perder tudo o que me davas com um amor que só tu soubeste dar, foi
chorar as lágrimas que sempre secaste dos meus olhos, foi lembrar-me do teu
sorriso apaixonante de que vou ter demasiadas saudades.
Claro
mãe, vou ser responsável como tu sempre me ensinaste!
A
derrota é mais impiedosa e penosa do que aquilo que aprendi na escola, perder
não nos ensina nada, não nos deixa mais fortes, perder magoa-nos e impede-nos
de respirar fundo, perder consome-te a força e faz-te esquecer como se luta,
como se vence.
Mãe,
a tua foto está exposta na sala, consigo vê-la enquanto me aqueço ao lume, como
gostavas de fazer. E é aqui que pertences, mãe, a nós, a mim, ao amor que
genuinamente ficará comigo. Amo-te mãe, como sempre amei.
quinta-feira, 10 de janeiro de 2013
Um herói na biblioteca
O silêncio da biblioteca anima-me, este
silêncio de pessoas a sussurrarem alguma coisa ou a folhearem um qualquer livro
deixa-me animado, este silêncio perfeito faz-me saborear com gosto o fresco da
água na garganta que, a cada gota, me inspira para este texto intercalado com
uma deliciosa fatia de bolo feito pela minha mãe.
Castanho, o cabelo do senhor da
pastelaria era castanho, como o chocolate deste mármore. Na verdade, acho que
era exactamente da cor deste chocolate, exactamente este castanho. O senhor da
pastelaria que deixou cair o troco da minha meia de leite com torradas, e eu,
com a manteiga a acelerar-me o corpo, apanhei todas as moedas sem as deixar
cair, num movimento que deixaria qualquer ninja envergonhado. Olhei a toda a
volta para receber aplausos de empresários a tomarem o seu café antes do
escritório e de professores a preparem a alma com um palmier ou um travesseiro,
mas tudo o que recebi com tamanho ato heróico foi um sorriso ensonado do senhor
da pastelaria enquanto dizia “e aqui estão os dez cêntimos que faltam.”.
Ah, como é inglório o heroísmo. As
estantes repletas de livros que vejo nesta sala silenciosa concordam comigo
guardando em si heróis de outras moedas que, como o ninja que escreve agora
estas linhas, perdem a gloriosa fama mais que merecida antes mesmo de a
receberem. Este bolo está divinal, digno de um herói que salva moedas indefesas
do áspero chão da pastelaria. Doí-me ser herói, não pelos reflexos desmedidos
mas pelo anonimato, pela transparência, pela invisibilidade, pelo calafrio e
mágoa da invisibilidade.
São quase onze horas da manhã e a
senhora da biblioteca sorri-me com um sono igual ao do senhor da pastelaria
quando me estendeu a última moeda. Esqueci esse sono do senhor da pastelaria
quando senti o fresco do outono fora do estabelecimento, olhei de novo para os
empresários e professores, atarefados com cafés e almas, com esperança de
receber um olhar fixo a dizer “bom trabalho ali com as moedas”, mas o ego
voador deste herói misturou-se com o desânimo da indiferença, o mundo não tinha
parado para o nascimento de um herói, e apenas aquele frio de outono
testemunhou a minha façanha mais que heróica, mais que épica.
Os heróis vivem no desconhecimento.
Nesta biblioteca há, certamente, um empenhado leitor a criar o silêncio das
folhas que, sem medos nem fama, voa pelos céus da noite a proteger donzelas
indefesas de cinquenta cêntimos. Acabei a fatia de bolo, e com ela, no silêncio
desta biblioteca, acabei também este texto.
domingo, 18 de novembro de 2012
Era uma vez um rei.
Era
uma vez um rei… Não não não não não.
Sim, era uma vez um rei! Deixa-me
adivinhar: vivia num castelo, com uma rainha, num reino encantado. Sim.
Não é uma boa história? Oh, histórias
de fantasias, que terminam com um gasto “e viveram felizes para sempre”, já não
são boas histórias. Mas esta é diferente, a sério. Não acaba com um final feliz? Não! Ouve: era uma vez um rei
que vivia num castelo, com uma rainha bonita, num reino encantado. O rei era
feliz, não tinha súbditos nem criados, não tinha jóias nem vestes exuberantes,
mas era feliz por ter, no seu reino, ao seu lado, a rainha mais bonita do
mundo. Na coroa de papel, os olhos do rei brilhavam quando a sua rainha cuidava
dos principezinhos como quem cuida de uma rosa branca, pura, verdadeira e apaixonante.
Agora vem um contratempo a esse amor
incondicional, não é? O que se passou com o rei? Uma viagem. O rei
apaixonado foi viajar por reinos longínquos e por sítios distantes. Os corações
dos reis daquele pacato reino estavam longe, separados por montanhas, mares,
desertos e enormes cubos de gelo, estavam impossibilitados de se tocarem e
criarem sorrisos falantes que preenchem o silêncio com a magia daquele amor(-)perfeito
nascido num pequeno jardim. Mas em cada noite desse tempo, e mesmo nas noites encobertas
por nuvens de saudades, esses corações, marcados por tardes deliciosas de sol
primaveril, olhavam a mesma estrela e faziam, a cada segundo, mil e uma
promessas sinceras daquele amor carregado de memórias. Nesse momento, quando o
brilho dos quatro olhos emocionados se uniam no brilho próprio da estrela
eterna, os reis sabiam que o mundo não era suficientemente grande para separar
aquele amor real e perfeito. Mas e
depois? O que aconteceu com o rei e a rainha? O rei voltou, com um
sorriso estrelar, e o abraço do reencontro foi mais belo e amoroso que os
reencontros dos filmes, por ser sincero, sentido e desejado. E hoje, hoje
mesmo, na mesa do pequeno-almoço, entre torradas e chávenas de café com leite,
o rei repetiu aquilo que, em cada noite, debaixo das estrelas, segredou à sua
amada rainha: o mais sincero “amo-te” que jamais foi sentido. Mas isso é um final feliz, tu disseste
que não acabava com um desses… E não acaba! É feliz sim, mas não é, de
todo, um final.
segunda-feira, 15 de outubro de 2012
Já sei quando me apaixonei por ti.
Já
sei quando me apaixonei por ti. Foi naquele dia em que, pela manhã, sorrimos
simultaneamente e sem sentido a um “bom dia” resistente ao frio que atormentava
cachecóis e luvas mas deixando, irremediavelmente, os nossos corações embebidos
no aconchegante mundo da paixão. Foi nesse dia que me apaixonei pelo brilho dos
teus olhos, pelo castanho brilhante dos teus olhos.
Um
dia seremos mais felizes que hoje. Sim, um dia mataremos com aqueles abraços só
nossos a distância que, hoje, teima em brincar com este divertido amor
brincalhão. Um dia, nesse dia, poderei sentir a tua respiração calma no meu
acelerado e amoroso coração e escrever-te com o virtuosismo que uma alma
apaixonada tem em si.
Leio-te
em mim, como se estivesses verdadeiramente dentro de mim. Ao fechar os olhos
leio cada pequeno detalhe teu, cada curva sublime das tuas mãos quentes, cada
ínfimo pormenor dos teus ombros deliciosamente perfeitos, cada apaixonante sílaba
dos teus lábios presentes em cada pensamento da minha mente. Leio-te com aquele
tremor interior de quem sente sem pensar cada letra quente e marcante que lê.
Imaginando-me
sem o grito constante do meu corpo por ti, o mundo sem sentido perde a cor e
aquela beleza de quando deixas os teus braços à volta do meu pescoço e me olhas
nos olhos, dizendo que tudo o resto, ainda que colorido, não interessa para o
nosso mundo que é nosso por sermos nós, de mão dada, a construir-lo.
Amanhã
será o dia mais feliz da minha vida. Será o meu próximo dia contigo, o dia em
que, com sono, terei um sorriso a receber-me com vocativos apaixonados e
preocupações com as minhas costas frágeis. Amanhã será o próximo dia em que
poderei sentir o teu perfume a proteger-me num abraço mais demorado que a
perfeição e, por isso, será o dia mais feliz da minha vida.
Não,
hoje não vou dormir tarde. Hoje despedir-me-ei lentamente de ti e irei ceder
aos encantos da minha almofada e sonhar, sonhar contigo e com aquilo que hoje
dissemos e sentimos entre aqueles sorrisos ainda envergonhados por fazerem a mesma
pergunta ao mesmo tempo. Sonharei com o teu nariz frio e com aquele beijo
saboroso no meu pescoço arrepiado. Hoje não vou dormir tarde para sonhar
contigo, para te ter, para te sentir e te amar ainda mais do que o infinito.
Amo-te!
Em cada segundo, com cada glóbulo vermelho do meu corpo, em qualquer lugar
deste mundo ilimitado, amo-te daquela forma que nunca nenhum poeta descreveu,
que nunca nenhum músico cantou, que nunca ninguém sentiu, daquela forma única
que nos torna especiais e nos deixa tranquilamente abraçados, juntos. Amo-te!
segunda-feira, 1 de outubro de 2012
Houve um dia em que o Benfica perdeu.
Houve um dia em que o Benfica perdeu, sem
polémicas nem erros de arbitragem, simplesmente perdeu. Nessa noite fria de
domingo fiquei chateado e não me apetecia pensar em mais nada a não ser naquela
bola na trave que, pelo menos, empataria o jogo. “Amor, de que cor pinto as
unhas?”, a simplicidade da pergunta fez-me sorrir como quando tinha 17 anos e
lhe mandava sms’s apaixonadas a desejar boa noite. “Não sei, talvez verde...”,
respondi como se quisesse que aqueles 90 minutos de sofrimento não tivessem existido
e voltar àquele dia em que lhe pedi um abraço só para ver o seu sorriso sincero
e belo ao dizer “claro que dou”. “Verde será!”, apercebi-me, espantosamente,
que continuo a sentir o mesmo cada vez que ouço a voz dela, desde o primeiro
“bom dia” numa manhã primaveril até hoje, que sinto aquela falta de ar e
borboletas no estômago de quem está genuinamente apaixonado e sente cada síliba
como um beijo inesperado e inspirador. “Hoje não quero ver a novela.”, foi aí
que acordei para o castanho reconfortante dos seus olhos bonitos e esqueci, por
momentos, o futebol. “Hoje quero conversar, como nos bons velhos tempos.”, como
naquelas vezes em que deixávamos para trás a hora apropriada para ir dormir e
ficávamos a teclar olhares cúmplices e sonhadores e a sorrir para um ecrã
inanimado. “Tu estás triste e eu quero conversar.”, não pude deixar de abrir um
sorriso àquela preocupação espelhada num par de olhos muito abertos e
ternurentos, não pude deixar de encostar a sua cara quente no meu peito enquanto,
naquele silêncio aconchegante nessa noite fria de domingo, a minha alma era
feliz com aquela desconcertante bola na trave.
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