quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Era uma vez um Natal...


Os miúdos correm pela casa como se quisessem combater o frio que embeleza o exterior das janelas embaciadas pelo cheiro natalício das rabanadas ou do bacalhau já pronto a ser servido entre gargalhadas e aqueles presentes que durante um ano inteiro todos sonharam ter. Depois de uma fatia pão-de-ló com queijo vi nos teus olhos aquele brilho que me apaixonou num dia quente de primavera e, já nessa longínqua e acolhedora estação, me fez saber que a mulher da minha vida tinha cabelos castanhos e orelhas fantasticamente bonitas, fez-me sentir orgulhoso de ser o príncipe mais feliz de todos os principados neste dezembro friorento. A lareira crepitava calmamente como o teu sorriso quando elogiei o jantar e amarrei o nosso menino mais novo para lhe fazer a pergunta mais simples do planeta: “a mãe é bonita não é?”, deixei-o continuar a correr depois de, muito sério, abanar freneticamente a cabeça com um sim sincero e fofo que também a mim me fez sorrir.
No momento alto da noite, naquele momento em que o vermelho do Pai Natal traz a felicidade ao mundo das crianças e à vida dos adultos, quando os nossos filhos soltaram um “uau” em coro e se gabaram entre si daquilo que receberam, os teus olhos embateram no castanho dos meus com um orgulho embebecido de quem tem um mundo inteiro a abrir presentes e a sorrir com o frio aconchegante de mais um Natal perfeito. 

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Medo de extraterrestres


Tenho medo, naqueles momentos em que sorris descontraidamente por qualquer tolice minha e me afagas o cabelo e me chamas “meu tontinho” tenho medo que um meteorito caia naquele cenário apaixonadamente perfeito, medo que extraterrestres ou economistas acabem com o nosso planeta necessário a um amor consumado na terra que a Terra tem, medo de perder um segundo desse sorriso iluminado por holofotes atenciosos e sedutores. E até naqueles momentos protetores e melancólicos em que te tenho nos braços e parece que tudo ao nosso redor resume-se àquele beijo demorado e saboroso, até aí eu tenho medo de ataques interplanetários e do fim do mundo anunciado, até aí tenho medo de adormecer sem o cheiro do teu perfume no meu corpo e perder uma vida inteira daquele friozinho na barriga de quem ama eternamente a cada batimento de um coração pequeno para tanta fome. Sim, também quando me olhas nos olhos e dizes que me amas tenho medo, aliás, é aí que este medo irracional domina a minha alma viciada no teu olhar sincero e nos teus elogios hiperbólicos e choro por dentro ao saber que um pequeno monstro verde pode tirar-nos o chão destas declarações eternamente verdadeiras sobre um amor insaciavelmente feliz. Perder, é esse o verbo que me faz agarrar o teu corpo como se o amanhã não existisse. Tenho medo de perder a subtileza dos nossos momentos, de perder aquele toque dos teus dedos no meus braços arrepiados, tenho medo de te perder e que esses seres que a ciência não conhece levem contigo este amor que me faz feliz em cada centímetro de um planeta (por enquanto) só nosso.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Um dia...



Um dia ele saiu de casa como se de um dia normal se tratasse, sem preocupações ou problemas por resolver. O seu caminho não mudou e até os habituais sorrisos matinais foram sentidos e alegres como sempre são. Mas aquele “bom dia” a que nunca ligara afetou-o de maneira diferente e inesperada, fez com que ele olhasse à sua volta como quem nasce e respira pela primeira vez o ar puro de uma floresta, fez com que ele reparasse naquela cara ensonada inundada por um perfume de avelã lisa e com diamantes de amêndoas a olhar o horizonte fresco. Surpreendeu-se, apesar de reconhecer a bonita silhueta feminina de todos aqueles chatos dias de bocejos silenciosos à espera da hora exata para começar o trabalho, havia ali algo novo, um dado diferente para os seus olhos, uma alma sem igual que aquele músculo no seu peito desejou conhecer. Mas não, não foi com a alma incomparável que ele se apaixonou por aquela menina cor de noz, foi com a subtileza dos gestos femininos, suaves e sensuais, foi com aquela blusa de um branco humildemente apertado e com aquelas calças em tons azulados a realçarem a simplicidade de um piscar de olhos esporádico que lhe encheram o coração de batimentos acelerados e estômago de borboletas teimosas e famintas.
Um dia, um belo dia depois de todas as complexas brincadeiras, a guerra acabou, a sua guerra por ela contra tudo o que teimava em obstruir aquele sentimento puro e indestrutível acabou. Acabou como acabam todas as guerras, de repente, sem explicação ou aviso prévio, com um “sim” momentâneo mas decisivo. Foi aí, nesse dia, nesse “sim” dado com certezas e sorrisos que ele entendeu que era aquela tímida figura sorridente que o separava daquilo que mais temia, a dor.
Um dia, um outro dia, na prosperidade de um reino independente, não houve guerra, a destruição não surgiu com balas ou explosões, foi no silêncio daquele “adeus” que, sem ferro nem fogo, o mundo caiu num desespero penoso e numa dor incontrolável, foi na velocidade daquele “acabou, desculpa” que todas as certezas, todos os sonhos, todas as realidades que ele amor que o agarrava àquela princesa guerreira que deixou aquele mundo de pantanas sem uma explicação, sem uma palavra extra que lhe mostrasse que aquilo valeu a pena.
Foi nesse dia, no “dia do adeus” que ela partiu, deixou aquele monarca sem reino repleto de recordações e cidades por reconstruir, não levou o ouro outrora brilhante daquela mente outrora feliz, não levou a prata daquela alma escurecida com aquele dia em que até Sol dava um sabor amargo ao café e aos biscoitos do lanche, só levou um pequeno e modesto coração que existia por aqueles momentos de felicidade que recordava em cada forte e silencioso batimento. Nesse dia de Sol amargo, o seu coração partiu com uma guerreira apaixonante para um mundo desconhecido. 

sábado, 7 de abril de 2012

É importante que me dês.

É importante que me dês
A atenção que eu mereço,
É quase tão importante
Quanto olhares-me nos olhos
Enquanto discursas sobre nós.

É importante que me dês
A sinceridade que procuro,
A simplicidade dos teus gestos e
O brilho do teu olhar depois
De um beijo apaixonado.

É importante que me dês
O carinho de um abraço,
Mais do que a razão
Nas nossas eternas discussões
Quero a tua felicidade.

É importante que me dês
A segurança do teu sorriso
E a beleza do teu rosto que
Me faz feliz, contrariando
A chuva e o frio deste inverno.

É importante que me dês
O teu futuro promissor,
Mais importante do que
Ter novidades no fim
De um dia igual aos outros.


É importante que me dês
A perfeição do teu corpo e
Do teu coração, que me enche
De orgulho por saber amar
Aquilo que me faz feliz.


(Acima de tudo)
É importante que me dês
A tua presença apaixonante
E o teu sabor viciante,
É importante que me dês (sempre)
Aquilo que agora me dás.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Hoje o meu mundo mudou.


Hoje o meu mundo mudou. Sim, continuo a chamar-me Rui e ainda tenho 16 anos. Sim, continuo a ver o azul pálido do céu e a ler os livros que lia. E sim, continuo a saber o que sabia e a pensar o que pensava. E, mesmo assim, o meu mundo mudou. Eu sei, continuo a medir mais de um metro e oitenta e continuo a tentar estar metade do meu dia atento às palavras sábias e convincentes de um professor. E também sei que no próximo fim-de-semana, como até agora, vou viver a febre do futebol, sofrer e festejar. E, mesmo assim, o meu mundo mudou. Até mesmo o meu vício pelo computador se mantém constante e os meus gostos musicais inalterados. O meu sorriso continua sincero e os meus olhos felizes, até as minhas mãos se mantêm frias. E, mesmo assim, o meu mundo mudou. Não mudaram as expressões nem as piadas, nem mesmo as ideias geniais, não mudaram as conversas rotineiras e divertidas sem finais conclusivos nem as horas de estudo de matérias indecifráveis. E, mesmo assim, o meu mundo mudou. Também sei, não engordei nem emagreci, e o meu apetite continua insaciável. Não deixei de dormir bem nem de acordar poucos minutos antes do toque do despertador. E, mesmo assim, o meu mundo mudou. O meu quarto continua cheio de azul, com caixas carregadas de recordações e coisas antigas e a parede branca continua a exibir posters de craques da bola. Até mesmo o simpático lagarto de plástico continua a fazer companhia às camadas de pó que se vão acumulando e a mesa-de-cabeceira está, como sempre, coberta de livros por ler, à espera. E, mesmo assim, o meu mundo mudou. Não mudou o bicho da escrita nem o gosto pelas cordas complexas da guitarra. Os meus desenhos animados de sempre continuam presentes e continuo fascinado por um super carro italiano. Continuo a gostar de números e a acreditar cegamente na ciência. E nem mesmo o meu desmesurado gosto pelo vermelho se alterou. E, mesmo assim, o meu mundo mudou. A minha enorme família continua a reunir-se aos domingos para ser feliz, e os meus amigos continuam a aturar-me dia sim dia sim numa escola que nunca mudou nem há-de mudar. Continuo a espalhar uma estonteante energia matinal e a esquecer-me da maioria das datas e informações e continuo a quase ignorar o cachecol e as luvas neste inverno gelado. E, mesmo assim, o meu mundo mudou. Tudo mudou sem nada se alterar. É verdade, … … … apaixonei-me.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Biologia criativa!


Agora apercebo-me que a Biologia que aprendemos na escola é engraçada. Imagino os nossos códigos genéticos a encaixarem-se quase totalmente porque, afinal, não somos assim tão diferentes, distancia-nos apenas um cromossoma no último par e alguns atrevidos nucleótidos da cor do cabelo ou do tamanho do corpo. Imagino o nosso ancestral comum orgulhoso de ter dado origem a uma espécie repleta deste amor só nosso e que nos caracteriza. Imagino os nossos ciclos de vida, a caminharem por mitoses sucessivas num sentido único e com um destino comum, como duas estruturas análogas, totalmente diferentes mas a caminharem para o mesmo fim, para o mesmo objectivo vital. Imagino a selecção natural do meu coração, o meu músculo apaixonado, como se fosse o meio ambiente do meu Darwinismo original, a eliminar, um a um, todos os inadaptados ao vermelho bombeado para todo o lado, a eliminar cada sentimento inapropriado ou sem sentido, deixando-nos apenas a nós, ao nosso amor solitariamente perfeito, ao nosso sentimento simples e imenso, à nossa paixão eterna e bonita. Imagino as nossas veias cavas a trocarem mensagens escritas falando das escassas novidades de um dia longo de trabalho e, quem sabe, a combinarem uma ida ao cinema ou um passeio calmo pelo seu mundo circulatório. Imagino o alívio dos nossos corpos ao serem colocados no mesmo reino, ao serem colocados na mesma espécie e população, o brilho dos meus olhos por, com esta classificação prática, poderem ver-te diariamente e orgulharem-se da beleza que carregas. Imagino um par de glóbulos vermelhos, um meu, um teu, a percorrerem alegremente o seu eterno e complicado caminho, cansados mas determinados a continuar por estarem unidos. Depois de imaginar tudo isto esqueço a Biologia que damos na escola e sei, sei que acima daquilo que esta ciência explica estamos nós, felizes, apaixonados, juntos.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

António Vieira e o nosso moderno século XXI


António Vieira, um nome demasiado crítico para um homem de Deus, um nome demasiado atual para um longínquo século XVII, um nome odiado pelos seus conterrâneos e pelos meus, talvez por serem iguais, talvez por serem ambos o alvo preferido das palavras ora antigas ora atuais deste padre que poderia ser, hoje, chefe de um partido da oposição ou, quem sabe, um defensor reconhecido dos direitos Humanos.
Mas o que mantém esta crítica do sermão aos peixes tão atual? Talvez seja a falta de evolução na forma de pecar do Homem. Se antigamente a ganância e o egoísmo eram abundantes, hoje ainda são mais, os homens que antigamente se comiam uns aos outros, hoje fazem-no com mais requinte e etiqueta mas não deixam de o fazer. Mas a falta de imaginação humana não se fica por aqui. Todas as críticas feitas aos peixes e, portanto, aos homens desse antigo século XVII podem ser encontradas num particular grupo da nossa sociedade, quatro séculos mais tarde: a arrogância e a coragem, que pode facilmente ser confundida com estupidez, dos pequenos roncadores parece ter inspirado as ideias dos sindicalistas atuais que, sem poderes, criticam e chamam a atenção dos grandes tubarões; a dependência e o oportunismo dos pegadores do mar é a imagem de marca dos jornalistas de hoje, que fazem carreira “empoleirando-se” nos famosos que destroem e dos quais se alimentam para viver. Tal como aqueles peixes oportunistas, também os homens e jornalistas morrem quando o gigante de que se alimentam morre; a desmedida ambição dos peixes voadores, presente na maioria dos empresários e homens de negócios do século XXI que, inconsequentemente, voam pelo ar e nadam pelo oceano, desafiando os perigos dos dois elementos que, mais tarde ou mais cedo, o acabam por matar; e, por fim, a traição e o engano do polvo com que os políticos atuais sobem ao poder, ludibriando o povo eleitor com traições e mentiras pecadoras.
Portanto, um António Vieira atual só teria que copiar as críticas do seu antecessor e acrescentar a evidente falta de imaginação para pecar.